Ou como, exatamente, as plataformas morrem
É assim que as plataformas morrem:
- Primeiro, elas são boas para os usuários
- Depois, passam a prejudicar os usuários para beneficiar clientes comerciais
- Por fim, exploram esses clientes para capturar todo o valor para si mesmas
E então… elas morrem.
Eu chamo isso de enshittification, termo cunhado por Cory Doctorow. Trata-se de uma consequência quase inevitável da combinação entre a facilidade de alterar como uma plataforma distribui valor e a natureza dos chamados “mercados de dois lados”, onde a plataforma fica entre compradores e vendedores — prendendo um ao outro enquanto extrai cada vez mais valor dessa relação.
Como tudo começa
Quando uma plataforma surge, ela precisa de usuários — então faz de tudo para ser valiosa para eles.
Pense na Amazon:
- Durante anos, operou com prejuízo
- Vendia produtos abaixo do custo
- Entregava abaixo do custo
- Oferecia uma busca eficiente e útil
Se você pesquisava algo, a Amazon tentava mostrar exatamente o que você queria.
Isso era um excelente negócio para os consumidores. Milhões aderiram — e, com isso, lojas físicas começaram a desaparecer, tornando mais difícil comprar em outros lugares.
Além disso:
- Livros digitais e audiolivros ficaram presos à plataforma (DRM)
- O Prime incentivou pagamentos antecipados
- 90% dos clientes passaram a comprar sem pesquisar fora da Amazon
O momento de virada
Com usuários “presos”, a plataforma começa a atrair empresas.
Vendedores entram, criadores entram — e a plataforma cresce.
Depois, a lógica muda:
- Primeiro, os benefícios vão para os usuários
- Depois, vão para os vendedores
- Por fim, vão para os acionistas
Hoje, vendedores da Amazon chegam a pagar mais de 45% em taxas ocultas.
A busca deixa de ser relevante e passa a ser manipulada:
- Produtos que pagam mais aparecem primeiro
- Anúncios dominam os resultados
- Até produtos copiados pela própria Amazon são priorizados
O ciclo da enshittification
O padrão é sempre o mesmo:
- Valor inicial → usuários
- Depois → parceiros comerciais
- Por fim → acionistas
Resultado:
A plataforma vira um sistema que extrai valor de todos — e perde utilidade.
Isso aconteceu com várias empresas:
- TikTok
- Meta
- Steam
O caso do Facebook
O Facebook seguiu exatamente esse ciclo:
- No início, mostrava conteúdo de amigos
- Depois, passou a priorizar mídia e páginas
- Em seguida, tornou esses parceiros dependentes
- E então cortou o alcance orgânico
Hoje:
- Você só alcança seu público se pagar
- O feed é dominado por anúncios
- Conteúdo relevante é suprimido
O papel do algoritmo
Criadores vivem tentando decifrar “o algoritmo”.
Mas o problema pode ser mais profundo:
- E se não houver lógica fixa?
- E se as regras mudarem conforme o interesse da plataforma?
É como um jogo manipulado:
A plataforma distribui “vitórias” estratégicas para atrair mais pessoas — não porque é justo, mas porque é conveniente.
O exemplo do TikTok
O TikTok cresceu porque era excelente em recomendações.
No início:
- Entregava exatamente o que o usuário queria ver
- Criava uma experiência altamente viciante
- Ajudava criadores a crescer rapidamente
Mas depois surgem sinais de mudança.
Segundo relatos internos:
- Existe uma ferramenta chamada “heating”
- Funcionários impulsionam vídeos manualmente
- Conteúdos são promovidos para atrair criadores e marcas
Ou seja:
- Algumas contas recebem alcance artificial
- Outras ficam invisíveis
Isso cria a ilusão de oportunidade — como um prêmio exibido para atrair mais participantes.
O próximo estágio
Depois que criadores e empresas ficam dependentes:
- O alcance “gratuito” começa a desaparecer
- Conteúdo deixa de chegar até seguidores
- A monetização se intensifica
A lógica muda:
- A plataforma não mostra o que você quer ver
- Mostra o que ela quer que você veja
O problema da “monetização”
O termo “monetizar” revela um problema:
A atenção não é moeda real.
- Não pode ser armazenada
- Não pode ser trocada diretamente
- Não tem valor intrínseco
Ela só vale quando convertida em dinheiro real — geralmente através de:
- publicidade
- manipulação
- ou coerção
O colapso é inevitável?
A enshittification exerce uma força quase inevitável.
É fácil demais:
- aumentar taxas
- manipular alcance
- priorizar lucro de curto prazo
E difícil resistir.
Mesmo empresas que sabiam disso — como o Google — acabaram caindo no mesmo padrão.
O que poderia evitar isso?
Alguns princípios poderiam reduzir esse problema:
- Liberdade para sair da plataforma
- Interoperabilidade entre serviços
- Controle do usuário sobre dados e conexões
A ideia central:
Usuários e criadores deveriam conseguir sair sem perder tudo.
Conclusão
A enshittification é, essencialmente, o ciclo de vida das plataformas digitais.
Elas começam úteis.
Crescem explorando relações.
E terminam drenando valor até se tornarem irrelevantes.
No caso do TikTok:
- O processo já começou
- E dificilmente será revertido
No fim, resta uma conclusão dura:
Plataformas não foram feitas para servir usuários para sempre — foram feitas para extrair valor.
E, quando isso vai longe demais… elas inevitavelmente entram em colapso.